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O medo de perder o controle

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.06.11

A primeira vez que ouvi falar no livro foi num programa da Oprah, numa altura em que frequentava a Sic Mulher para ver um outro programa What not to wear. Entretanto uma amiga falou-me no livro, Comer Orar Amar, mas não lhe dei muita atenção. Súbitos impulsos de uma viagem interior parecem-me sempre tão pessoais... apesar de universais na natureza humana. Todos nos irmanamos nas grandes buscas. 

Mas a verdade é que ultimamente dou por mim a interessar-me por pessoas simples e vidas simples, passeios tranquilizantes, conversas amenas, pequenas amabilidades, tardes sossegadas. Grandes efeitos e percursos tortuosos podem ter-me fascinado, mais no plano filosófico do que no plano real, mas entretanto passei por aqueles rápidos no rio sem regresso e a vida tornou-se muito mais simples e alegre.

 

E tudo isto para vos dizer, caros Viajantes, que vi o filme sem ter lido o livro. A primeira impressão: muito condensado. Tanta alteração junta na vida de uma pessoa, e por impulsos a que não se pode resistir, colocaria um simples mortal a recuperar num local conhecido e acolhedor. No início assim será, em casa de um casal amigo, a seguir em casa do novo namorado, um actor sensível e espiritual. Mas a Liz lança-se na aventura sem hesitar: Itália, Índia, Bali.

 

Cada uma das experiências em cada um destes locais dava um filme. Aí é que está. O contacto com a cultura italiana, quente e sensual (e parece que ninguém lhe fica indiferente, já aqui falámos dessa influência inevitável, despertar a nossa verdadeira natureza), os pratos de massa, tomate, queijo e outros ingredientes fabulosos, o vinho sempre presente, a língua cantante cheia de cor e gestos... A descoberta dos simples prazeres da vida, só essa descoberta dava um filme.

Aqui Itália está ligada à parte comestível: Comer. Mas se observarmos bem, foi muito mais do que isso. Foi soltar hábitos e rotinas, a rigidez convencional, a imagem idealizada, e simplesmente viver dia a dia. O dolce fare niente, fabulosa descrição. Ser, estar, respirar, simplesmente. 

 

Índia: a descoberta da dor profunda, a sua e a do Richard do Texas, uma amizade que surge no lugar da meditação. Escondemos as nossas dores quando não sabemos lidar com elas. E depois, perdoar, que é apenas largar, deixar ir... Não nos agarrarmos à dor. Não querermos segurar o que passou por nós, o que não está nas nossas mãos. Esta é a aprendizagem mais difícil, a meu ver: deixar de querer controlar tudo, a vida e as pessoas à nossa volta. Querer controlar sentimentos e emoções. Esta é a aprendizagem interior, mas necessariamente em interacção com os outros. Não é um percurso solitário. Richard tinha sido um mau pai e um mau marido, não porque essa fosse a sua natureza essencial, mas porque assim aconteceu na lógica da sua vida, nas circunstâncias do seu passado. Ao ouvi-lo, a nossa Liz consegue perdoar a sua própria fuga do casamento e ter magoado o marido.

 

Bali: o reencontro com o velho curandeiro, essa cumplicidade mestre-aluna. E também a descoberta surpreendente do seu maior receio: perder-se nos relacionamentos. E voltamos ao mesmo: o medo essencial de perder o controle. O homem que quase a atropela será o que a liberta desse medo. Talvez porque não tem receio dos seus próprios sentimentos e emoções, aceita-os. 

Interessante a amizade da Liz com uma curandeira, divorciada e mãe de uma miúda. Terá sido a própria filha a pedir-lhe para se separar do marido violento. Com apenas quatro anos, dirá à Liz, pediu-me para o deixar... Agora mais crescida ajuda a mãe. Ambas têm um sonho, uma casa só delas, para ter a sua farmácia: plantas curativas. Ao ajudá-la a realizar o seu sonho, o círculo fecha-se nesta história incrível: é uma grande família que surge, laços que se estreitam, os amigos dos vários locais do seu percurso.

 

Só falta constituir-se a relação mais estreita, aquela que nos completa. E aqui observação importantíssima: a relação amorosa que tem passado culturalmente é sobretudo a relação fusional. O desafio aqui é precisamente o da proximidade e da partilha sem se perder a si próprio na relação. É a última lição para a nossa Liz: não recear perder o controle. Como dirá o velho mestre: o amor pode levar a perder-se temporariamente mas, paradoxalmente, ajuda a manter o equilíbrio.  

 

 

 

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publicado às 11:02

A vida das mulheres num mundo essencialmente masculino

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.06.09

 

No meu tempo de colégio em Coimbra, que coincidiu com a Primavera marcelista, gostava de admirar as alunas veteranas do 6º e 7º anos (actuais 10º e 11º), que surgiam, aos meus olhos pré-adolescentes, como personagens romanescas: já tinham um namorado com quem se correspondiam, nesse tempo era assim, e vestiam de forma muito feminina (quando eu vinha familiarizada com o “estilo arrapazado” dos anos 70, das calças no inverno e dos calções no verão, provavelmente influência british no espaço-tempo onde nasci).

Foi a ouvi-las atentamente que fiquei a saber que o seu livro obrigatório no programa de Literatura Portuguesa era o Eurico, o Presbítero, de Herculano, e que um dos livros por elas mais lidos tinha um título muito moral e filosófico: Orgulho e Preconceito.

De tantos livros que vira nas estantes lá em casa nunca tropeçara naquele nem na sua autora, Jane Austen. Estranho... O mais engraçado é que entretanto já vi três filmes baseados em romances seus, primeiro o Emma, a seguir Sensibilidade e Bom Senso e depois este Orgulho e Preconceito e nada de ler os livros.

Portanto, foi pelos filmes que fiquei a conhecer as suas fabulosas personagens femininas. Sim, as personagens femininas de Jane Austen são adoráveis criaturas! Bem, nem todas, claro está, refiro-me apenas às personagens principais. Mulheres inteligentes e muito práticas, responsáveis por si próprias e pelos seus. E que valorizam os afectos de uma forma abnegada e leal. E de um raciocínio estratégico fundamental para poder sobreviver num mundo masculino.

Vi num documentário alguém chamar a atenção para esta característica nos romances de Jane Austen: não se fixa apenas no que é público, no social, mostra igualmente a realidade dos bastidores, da vida familiar, das preocupações financeiras, das dúvidas em relação ao futuro, das vidas das mulheres que procuram manter a qualidade de vida da sua família e a sua imagem ou estatuto social.

 

Neste Orgulho e Preconceito seguimos os acontecimentos pela perspectiva de Lizzie, a segunda filha de um casal brasonado que vive em pleno campoinglês. Além das qualidades geralmente presentes nas personagens femininas de Jane Austen, esta jovem mulher é muito decidida e orgulhosa. Funciona aliás como um pilar da família, mantendo a sensatez que contrasta com a superficialidade da mãe e a irresponsabilidade das irmãs mais novas. Tem uma grande cumplicidade com o pai, o único capaz de reconhecer o seu valor, e uma grande proximidade com a irmã mais velha, a que, das cinco irmãs, consegue conciliar beleza e simplicidade.

 

Um breve intervalo aqui para decidir como irei pegar neste filme de que gosto muito e que revi há dois dias na TVI, à meia noite (estes horários dos filmes na televisão é que não são nada adequados)...

 

Retomo aqui o fio à meada pela forma como, em Jane Austen, as personagens femininas mais interessantes são as que se apoiam mutuamente - as irmãs que são amigas, as amigas que são irmãs. Parte da sua força está nos laços subtis que vão entrelaçando entre si, de amizades que se alimentam com muito respeito e dedicação. Só assim também as suas vidas se podem tornar mais agradáveis e mesmo toleráveis, num mundo essencialmente masculino.

Referi aqui as personagens femininas mais interessantes, as protagonistas, que me parecem funcionar em Jane Austen como modelos que representam valores morais: a coragem, a amizade, a lealdade, a abnegação, a sensatez, a sensibilidade. A sua consistência está precisamente em não serem perfeitas e em terem uma mente autónoma, a consciência da realidade, dos condicionalismos da sua vida. Em algumas vemos o orgulho, noutras a determinação, noutras ainda a timidez. Todas observam o mundo em redor, há uma curiosidade natural pelas pessoas e pelas suas vidas, nenhuma se fecha sobre si própria ou se aliena em ilusões ou fantasias.

As personagens femininas de Jane Austen também são um pilar da família: a filha que se sensibiliza com a ingenuidade da mãe, a filha que se dedica ao pai, a filha que protege a família.

E há as personagens femininas secundárias, as pueris, as superficiais, as egocêntricas, as altivas, as dominadoras, as implacáveis. Todas as variantes de uma natureza feminina numa época tão limitativa para as opções de um percurso interessante.

É aqui que vejo a grande eficácia das mulheres de Jane Austen: para viver naquele cenário masculino, a ginástiva mental e emocional que precisam de treinar! A capacidade de observação e de inteligência prática, para antecipar acontecimentos ou despoletar outros que possam jogar a seu favor!

É certo que Jane Austen se dedica a analisar uma classe social com alguma margem de manobra, não é a vida-escravatura das mulheres sem quaisquer recursos. Mas nesta classe, as mulheres vivem diariamente o medo de perder o seu nível de vida ou de ver a família em dificuldades financeiras. Elaboram constantemente contas de cabeça, rendimentos ao ano, que podem fazer a diferença entre uma vida com algum conforto ou uma vida com muitas privações.

 

Voltando ao Orgulho e Preconceito, o que mais me impressionou:

- o movimento de todo o filme, desliza suavemente sem quebras ou sacudidelas, sem paragens bruscas nem atropelos, perfeito;

- as cenas dos dois bailes: a primeira, pela sua espontaneidade e alegria estonteante, tanto dos que dançam no salão, como nos que se passeiam pela casa, as conversas, os comentários; a segunda, pela coreografia poética, a revelar uma atracção entre aqueles dois aparentemente tão diferentes;

- a forma natural como vamos conhecendo as personagens, pelo seu comportamento e atitude;

- as cenas de bastidores da família Bennet, a forma como se adaptam a diversos registos e a diversas circunstâncias;

- a fotografia, aqueles enquadramentos clássicos, aqueles palacetes, aqueles jardins, o campo inglês...

 

Este é o papel de Keira Knightley, uma Elizabeth encantadora. Mr. Darcy aqui em jovem romântico tímido, mais belo e frágil do que a descrição que dele fazem as outras personagens e outras ainda de um outro filme, You' ve Got Mail, na conversa-duelo daqueles outros dois...

Os homens aqui em diversas paletas: o gentleman e amigo leal, o pai protector-afável e marido tolerante, o oportunista-arrivista, o ambicioso-servil, o ingénuo-carinhoso.

 

Ainda gostaria de voltar, um dia destes, a esta época de vidas simples em tempos difíceis, pela voz sensata de Jane Austen e o olhar poético de Ang Lee, no Sensibilidade e Bom Senso, que tanto me impressionou...

 

 

 

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publicado às 00:51


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